Educação Grega por Alessandro Barreta Garcia

11-11-2014 23:17

Alessandro Barreta Garcia é mestre em educação, docente na Universidade Nove de Julho e autor dos livros: Aristóteles nos manuais de história da educação e Educação grega e jogos olímpicos: período clássico, helenístico e romano, este último, publicado pela “Paco Editorial” em 2012.

 

  • Quais são as principais diferenças entre o modelo de ensino grego e o atual?

Em uma comparação com o passado é sempre prudente levarmos em conta os aspectos específicos de cada época, seu contexto histórico descrito pelos especialistas da atualidade, bem como os elementos imprescindíveis que são encontrados nas fontes primárias. Dito isto, observo que a educação grega na antiguidade era voltada a uma elite guerreira, esta, deveria formar o cidadão por meio das virtudes que Homero imortalizará em sua bíblia da educação, a Ilíada. As virtudes seriam a justiça; honra; glória; velocidade; agilidade e força. Por meio da ação, o velho Fênix instruía seu pupilo Aquiles nessas qualidades descritas acima. A educação grega de forma geral era voltada a um grupo seleto, já a educação atual deve atingir a “todos”, deve ser democrática. O grego antigo era voltado especificamente para a guerra, e o ideal de educação era proveniente dos deuses e semideuses (A formação para a guerra era cercada de religiosidade; política e cidadania). A educação atual é além de erudita e livresca é uma educação técnica e profissional. Os gregos também nos ensinaram a competição justa e livre do profissionalismo, já na atualidade presenciamos os jogos olímpicos cercado de remuneração e patrocínios. Com esta realidade, o esporte moderno perde muito de sua raiz essencial, seu espírito olímpico amparado na ética; valores supremos e no respeito ao adversário.

  • E quais são as semelhanças?

As semelhanças são várias, até porque a educação grega ainda é o melhor modelo que temos. O sistema educacional que preconiza os cuidados familiares até por volta dos sete anos de idade é uma característica marcante da educação grega e da nossa educação na atualidade (muito embora exista na atualidade uma crise na célula familiar). A divisão por disciplinas, no ensino básico o grego aprendia a gramática; música e a ginástica. Na atualidade, a divisão por disciplinas também é comumente aceita. A educação pública na Grécia, assim como na atualidade era uma prioridade, embora, esta tenha ocorrido entre os espartanos, mais que na sociedade ateniense, e de forma totalitarista. A educação militar dos atenienses também ocorria por voltados dezoito anos, assim como o nosso serviço militar na atualidade. Em relação ao exercício físico, os cuidados com as crianças descritos por Aristóteles são os mesmos que encontramos em nossos dias, a diferença está em geral no uso tecnológico observado nas pesquisas experimentais de nossos laboratórios universitários.

  • Na Grécia os alunos eram formados para serem bons cidadãos e não tinham uma formação voltada para a profissão que exerceriam. A que se deve este fato?

O trabalho manual na Grécia antiga era executado por escravos, escultores e estrangeiros, não cabia o trabalho manual aos cidadãos, estes de forma geral lhe cabiam a participação efetiva na guerra (a guerra para o grego era o negócio) já suas atividades comuns pertencia ao mundo do ócio, ou seja, a filosofia; política; astronomia e as letras. A repercussão disto na educação brasileira é que o ensino técnico e profissional não será prioridade, visto que nossa sociedade é fundada no escravismo. O ensino técnico e profissional brasileiro só ocorrerá em virtude da revolução capitalista dos anos de 1930 (ocorrerá em função das mudanças propostas pelo governo de Getúlio Vargas e pelas melhorias e exigências do capitalismo da época).

  • A educação grega era diferente em Esparta e em Atenas. Qual modelo chega mais perto do aplicado atualmente?

Na realidade, os dois estilos nos servem de modelo. Retirando os aspectos negativos da educação totalitarista de Esparta, pela qual impunha a seus cidadãos um militarismo e uma servidão ao estado que praticamente ocorria durante toda a sua vida, bem como da aversão ao estrangeiro (a xenofobia) e a purificação étnica, a educação espartana é essencialmente militar; técnica e profissional. Por isso, e por estas últimas características, ela ainda pode nos ensinar como preparar uma geração de profissionais em nossa sociedade. Porém, uma educação não pode ser apenas técnica, precisa ser humanística; erudita e livresca, e nesse sentido, o estilo educacional ateniense, com seu caráter integral e multidisciplinar é essencial para o ensino contemporâneo.

Desse modo, o ensino brasileiro especificamente falando, virou as costas para esse modelo, não há uma conservação daquilo que foi e ainda é o melhor exemplo educacional a ser seguido. Por este e por outros motivos, a educação brasileira de caráter progressista e não conservadora tem apresentado os piores resultados nos rankings internacionais de educação. O fato de não olhar para o passado, e desprezar muito dos ensinamentos dos gregos e de sua clássica filosofia (Sócrates; Platão e Aristóteles), tem levado a educação brasileira a um abismo nunca visto antes na história deste país. As poucas escolas que seguem a estrutura grega são as escolas militares e religiosas, estas estão entre as melhores do Brasil.

Fonte: http://editorialpaco.com.br/saiba-mais-sobre-educacao-grega/